08/03/2016

março 08, 2016
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No Brasil há uma antiga crença de que seu povo é amável, amigável, divertido, um gentil. Uma crença que, apesar de todos os problemas, estranhamente ainda vigora na mente e na boca do povo como se este se recusasse a ver a verdade, sobretudo em relação ao convívio entre homens e mulheres.

O Brasil é um dos países mais violentos do mundo, com índices assombrosos de assalto, assassinato e todo tipo de violência gratuita, inclusive uma das mais bárbaras, o estupro. Homens acreditam que têm direito sobre o corpo da mulher porque se veem superiores. Como dizia alguém que conheci na minha adolescência, “A mulher nasceu para ser inferior mesmo. Até na hora do sexo a gente sente prazer e ela sente dor”. Ainda não sei como ele fazia sexo para que suas mulheres sentissem dor e não prazer.

Conheci outro, pouco depois, que dizia bater na sua esposa diariamente. Segundo ele, o homem tinha que bater na mulher todo dia, pois, mesmo que ele não soubesse por que estava batendo, ela sabia por que estava apanhando. Quando me indignei e perguntei que história era essa de bater na mulher e por que ele acreditava que tinha esse direito, saiu e não respondeu. Morreu alguns anos depois de cirrose.

O Brasil é um dos países que mais espancam, estupram e matam mulheres, sejam crianças, sejam adultas. Mas essa, claro, não é a única violência a agredi-las. Há a coerção moral, o assédio, a discriminação, os salários inferiores ao dos homens, enfim, toda sorte de desrespeito em atitudes, no mínimo, imorais.

Contudo, o Brasil não está sozinho. Esse tratamento também está presente em vários outros países, mesmo que em escala menor do que aqui, mas está, até mesmo nos de primeiro mundo. Nos Estados Unidos, uma mulher, em cada cinco, será estuprada na universidade até o fim do seu curso, dizem pesquisas americanas. E eu me pergunto por quê?

Quanto às outras formas de agressão, o que justifica seus salários menores, o assédio, o acuamento, o rebaixamento moral, intelectual e humano? O que há na cabeça dos estúpidos que se veem superiores à mulher simplesmente porque não são homens? Queriam eles um mundo só de homens? O que leva um homem a sentir-se melhor batendo numa mulher do que a beijando com seu consentimento? Por que encontra maior satisfação no estupro do que no amor?

O que veem esses trogloditas quando olham para uma mulher atraente, sexy: Um pedaço de carne que se oferta, um ser qualquer que existe apenas para o seu prazer, de quem pode se servir com todo o direito que um desvirtuado deus, misógino e virulento produziu para ele? 

Belicosos, sobretudo em países como o nosso, acreditam que tudo podem ter através da força, e ser homem é saber bater. Mas não é. Bater é fácil, qualquer um bate, merecer ser chamado de homem é que parece difícil nesse mundo servido de trogloditas das cavernas, fracos de força intelectual, medrosos que temem parecer menores do que as mulheres que desejam; por isso batem como única forma de vencê-las. Porém, um homem não se parece com isso. E os que assim agem não percebem que, ignorantes, rebaixam-se, inferiorizam-se e expõem toda a sua imensa insignificância.

Observando esses valentões sempre me perguntei o que são suas mães para eles, meras barrigas de aluguel nascidas para procriar os machos dominantes; os mesmos machos que, no escuro, gritam “Mamãe!”, quando sombras se mexem na parede, quando machucam o pesinho macho, quando sentem febre e sabem que suas mães são as únicas capazes de lhes suportar e tratar? Possivelmente!

Quando estou parado apenas observando a beleza da vida, e vejo uma mulher passar com seu silêncio sedutor grandiloquente, também me pergunto como é possível que um homem olhe para um rosto delicado, para olhos femininos, para uma boca carnuda, para um corpo que se movimenta como se dançasse, para um sorriso que ilumina, e tudo o que consiga pensar é bater e possuir.

Esse não tem respeito pela beleza que enriquece a felicidade, não sabe apreciar a estética filosófica do belo, não conhece o prazer do toque de uma pele macia que escorrega pela sua como se sussurrasse; não tem ouvidos para ouvir a voz que canta, mesmo quando fala; não sabe apreciar um sorriso que, se dado a ele, iluminam o mundo; não tem a sensibilidade de apreciar e agradecer um jogar de cabelo para o lado, na clara evidência de que lhe paquera e que espera a sua conquista suave e carinhosa; não sabe que ser homem é também saber apreciar e agradecer por ser escolhido para ter o direito de fazer uma mulher feliz.

Não faço aqui apologia à vassalagem amorosa das Cantigas de Amor dos trovadores da Idade Média, não falo de endeusar a mulher amada, de colocá-la num pedestal inalcançável porque não alcançar, porque idolatrar é perder a chance de dividir o prazer, em todos os seus sentidos. Falo de respeito, de amizade, de compartilhamento, de ver na mulher que lhe sorrir alguém que merece a sua mão como lar, não como prisão e açoite.

Não é tudo no mundo que é tão bonito quanto o sorriso da mulher que divide momentos com você; não é tudo no mundo que é tão prazeroso quanto o “Bom dia, meu amor!” da mulher que lhe ama, sussurrado ao lado na cama onde dormiram juntos; não é tudo no mundo que é tão fascinante quanto um sim da mulher que lhe deseja, simplesmente porque ela o quer; não é tudo no mundo que é tão bonito quanto uma mulher inteligente que rir com graça, que divide com você seu dia, que fala de arte com paixão, que filosofa a vida tão articuladamente quanto qualquer homem, simplesmente porque ela pode.

Eu sei, o mundo não anda fácil para vocês, mulheres. Há até mesmo mulheres machistas que vão contra as próprias mulheres. Mas essas são apenas frutos de uma sociedade machista e misógina que as aliciou enquanto cresciam. Sei que os dias parecem se repisar como um feitiço do tempo, onde mulheres são repetidamente agredidas, desrespeitadas, violadas, dia após dia. Eu sei, é fácil até acreditar que o mundo regrediu, que voltamos há anos antes de março de 1911, quando mais de 100 operárias morreram em um incêndio na fábrica têxtil Triangle Shirtwaist, em Nova York, vítimas das faltas de condições de trabalho e precariedade do local, que as levou a não conseguiram evacuar a área. Tragédia que deu origem ao Dia Internacional da Mulher; tragédia que aparentemente já foi esquecida, tornando essa data em apenas mais uma data. E não duvido que mulheres continuem a serem agredidas exatamente no seu dia.

Hoje a violência contra vocês explode e meu sexo é o maior culpado. São seres com a mesma combinação química que eu que fazem da vida de vocês um inferno, e isso me envergonha. Com que cara pode um homem honesto olhar para uma mulher que acabou de ser agredida por outro homem? A única resposta que me vem à mente é com cara de “Perdão, por favor!”.




Imagem: Roi James, Woman with Eastern Bluebird, 2005.

6 comentários :

  1. Parabéns pelo oportuno e belo texto, William Lial!
    Obrigada!

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    1. Obrigado a você, Kakita!
      Um beijo carinhoso!

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  2. William, emocionei-me com seu texto. Obrigada pela homenagem! É tão difícil que um homem escreva sobre o estupro e a violência doméstica como você o fez. Vera

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    1. Oi, Vera!

      Obrigado pela leitura e pelo comentário. Essa violência é algo realmente terrível e que, infelizmente, parece ter voltado a crescer de forma assombrosa. Espero que um dia possamos viver sem isso.

      Um abraço carinhoso.

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  3. Parece texto de quem sabe não só escrever, mas tambem sabe amar, William.

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